O acordo provisório entre Mercosul e União Europeia: imperfeito, mas muito promissor

Ganhos, riscos e decisões que o Brasil precisará tomar após o avanço do acordo

Após 26 anos de negociações, o acordo Mercosul–União Europeia finalmente avançou para um entendimento político no início de 2026. Ainda não é um acordo plenamente implementado, mas é, sem exagero, um dos movimentos econômicos mais relevantes para o Brasil desde o Plano Real.

Não se trata de empolgação nem de medo. Trata-se de entender o que está em jogo, com ganhos claros, riscos reais e decisões que dependerão muito mais do Brasil do que do texto do acordo em si.

O que é o Mercosul — e por que negociar em bloco faz diferença

O Mercosul é um acordo de integração econômica entre países da América do Sul, criado para facilitar o comércio, reduzir tarifas e diminuir burocracias. Brasil e Argentina formam o núcleo do bloco, enquanto países como Chile, Colômbia, Peru, Equador, Suriname e Guiana participam como associados. A Venezuela, atualmente, está suspensa.

Na prática, negociar em bloco traz vantagens claras. Produtos circulam com menos impostos e menos entraves. É por isso que, por norma, um vinho argentino chega ao Brasil muito mais barato do que um vinho europeu.

Há também um nível de integração mais simples, mas relevante: a circulação de pessoas com menos burocracia, algo que lembra, em escala menor, o espaço Schengen europeu.

O Mercosul surgiu em uma época em que o multilateralismo estava em alta, quando países buscavam cooperação em vez de confronto. O mundo mudou, mas a lógica de ganhar força negociando em conjunto continua válida.

Historicamente, blocos econômicos, também, sempre tiveram como intuito de preservar as relações institucionais, evitando e mitigando conflitos históricos entre países, pois é sempre melhor negociar do que iniciar conflitos e aprofundar tensões.

O que esse acordo faz, na prática

O acordo Mercosul–União Europeia representa uma abertura comercial profunda. Ele prevê a eliminação de tarifas para cerca de 92% das exportações do Mercosul e 91% das exportações europeias, além da abertura de serviços, regras ambientais mais exigentes e maior acesso às compras públicas.

Não é um acordo tímido. É uma mudança estrutural, com impactos distribuídos de forma desigual entre setores.

Na prática: onde o Brasil ganha — e onde precisa tomar cuidado

Aqui vale ser direto. Esse acordo não é nem milagre, nem tragédia. É uma troca.

Onde o Brasil tende a ganhar

O primeiro ganho é institucional. Quando países negociam em bloco, há menos chance de conflitos e mais previsibilidade. O Brasil, maior parceiro comercial da Argentina, se beneficia diretamente dessa coordenação regional.

No agronegócio, mesmo com cotas, o ganho é significativo. A União Europeia abriu espaço para produtos agrícolas do Mercosul. Isso já ocorria antes, mas agora o acesso fica mais forte, previsível e institucionalizado. Mesmo com limites, o agro brasileiro tende a ganhar muito.

Do lado do consumidor, há efeitos positivos claros. Produtos como azeite, vinhos, queijos e, principalmente, o trigo — base alimentar global — tendem a ficar mais acessíveis com a queda de tarifas. Isso ajuda a aliviar custos internos em alguns itens essenciais.

Na indústria, empresas brasileiras já fortes devem se beneficiar ainda mais. Setores como papel e celulose, máquinas e equipamentos ganham escala. O acesso a máquinas mais sofisticadas eleva a produtividade nacional — e isso é inevitável.

Há também um ponto estratégico importante: o custo de produção no Brasil é menor. Isso pode levar empresas europeias a instalar fábricas aqui, produzir localmente e exportar de volta. Se isso acontecer, salários tendem a subir, empregos mais qualificados surgem e o Brasil pode se tornar uma espécie de “China tropical” da região — desde que como produtor, não apenas como mercado consumidor.

Além disso, setores como agro, químicos, máquinas, farmacêutico, bancos e serviços financeiros podem ganhar mercado. Sistemas bancários brasileiros, por exemplo, são altamente competitivos e têm espaço para crescer fora.

Para quem investe globalmente, o movimento é claro: o Brasil passa a jogar em um tabuleiro maior.

Onde estão os riscos — e eles não são pequenos

O principal risco no curto prazo é a pressão inflacionária interna. Se produtores priorizarem exportações, produtos podem encarecer no mercado doméstico. Isso já acontece hoje com vendas para Ásia e Estados Unidos, então o risco existe e pode se intensificar.

Outro ponto sensível é o impacto sobre pequenos produtores e indústrias menos eficientes. Quando um mercado se abre, alguns setores não sobrevivem. Isso vale especialmente para indústrias historicamente protegidas no Brasil, como têxtil, autopeças, veículos, vestuário e eletrônicos. Se essas empresas não se adaptarem, vão quebrar.

Há também o risco da reprimarização da economia: exportar commodities e importar manufaturados. O acordo pode empurrar o Brasil tanto para uma reindustrialização inteligente quanto para esse caminho mais fácil — tudo dependerá das decisões internas.

No campo ambiental, existe uma armadilha possível. Para vender à Europa, produtores terão que cumprir regras rigorosas. Embora a legislação ambiental brasileira já seja robusta — a ponto de empresas não conseguirem crédito se não a cumprirem —, o risco está em adotar padrões europeus de forma unilateral, perdendo produtividade sem ganhos proporcionais.

Outro ponto sensível são as compras públicas. Empresas europeias poderão participar com mais liberdade das licitações brasileiras. Isso gera receio, mas também aumenta concorrência, melhora produtos e tende a reduzir preços. O problema não é a concorrência em si, mas a falta de preparo interno.

Como todo grande acordo, haverá pressão política e guerra de lobby em ambos os blocos. Muitas decisões práticas ainda não estão totalmente definidas.

Segundo o IPEA, o acordo pode elevar o PIB brasileiro em cerca de 0,46% até 2040. É um ganho estrutural, não uma revolução imediata.

Conclusão: o mapa existe, a bússola é interna

O acordo Mercosul–União Europeia é imperfeito, assimétrico e cheio de riscos. Ainda assim, é uma das melhores oportunidades econômicas para o Brasil desde o Plano Real.

Para quem investe globalmente, o acordo não muda apenas o mercado — expõe, com mais clareza, as virtudes e as fragilidades estruturais do Brasil.

Embora o acordo forneça o mapa, o destino do país dependerá da bússola interna. Sem uma reforma administrativa profunda e maior racionalidade política, a abertura pode beneficiar mais os parceiros do que o próprio Brasil.

O acordo não garante sucesso. Ele revela detalhes.
Quem decide o resultado é o Brasil.

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