Como um fenômeno no Pacífico pode afetar a inflação, a energia e a economia brasileira nos próximos meses
Em maio de 2024, moradores do Rio Grande do Sul assistiram a água subir de um jeito que nunca tinham visto. Ruas viraram rios. Casas desapareceram. Mais de 150 pessoas morreram. Centenas de milhares perderam tudo. E o custo econômico — em infraestrutura destruída, produção paralisada, vidas interrompidas — ultrapassou dezenas de bilhões de reais.
Aquilo não foi azar.
Foi El Niño.
E agora ele está voltando.
Durante muito tempo, eventos climáticos foram tratados como assunto de meteorologista — algo que importa para o agricultor, para o gestor de reservatório, para o especialista em desastres naturais, mas não para a economia em geral. Essa separação nunca fez muito sentido. E hoje, ela simplesmente ruiu. Clima, inflação, energia, produção agrícola e estabilidade econômica são partes do mesmo sistema. O El Niño talvez seja o exemplo mais claro — e mais perturbador — dessa realidade.
O que é, afinal, o El Niño?
O fenômeno não é uma tempestade, não é uma seca, não é uma enchente. É algo mais profundo e mais abrangente: uma alteração nas condições oceânicas e atmosféricas do Pacífico equatorial, marcada pelo aquecimento anormal das águas superficiais da região. Esse aquecimento, aparentemente distante, modifica padrões climáticos em escala global — e altera o comportamento das chuvas, das temperaturas e da circulação atmosférica em continentes inteiros.
Poucos países sentem esse impacto de forma tão direta quanto o Brasil.
A razão é estrutural. A economia brasileira ainda depende profundamente do clima — da chuva que enche os reservatórios e gera energia elétrica, da regularidade das estações que define a colheita, da estabilidade climática que mantém os preços dos alimentos dentro de um intervalo suportável para quem vai ao supermercado. Quando o El Niño mexe nessa estrutura, você sente — mesmo que não saiba o nome do fenômeno que está por trás do aumento da sua conta de luz ou do preço do frango.
Os sinais de 2026
Os dados não deixam muito espaço para dúvida.
O Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA — a agência climática americana — confirmou oficialmente o encerramento da fase de La Niña. As probabilidades de formação do El Niño ao longo de 2026 seguem crescendo: cerca de 79% de chance entre junho e agosto, superando 80% nos meses seguintes e podendo ultrapassar 90% no segundo semestre. A Organização Meteorológica Mundial confirma o mesmo cenário, com modelos climáticos fortemente alinhados.
Existe ainda uma chance relevante — em torno de 25% — de formação de um Super El Niño, evento de intensidade excepcional comparável ao de 2015/2016, um dos mais fortes registrados desde meados do século XX. Ninguém consegue afirmar com certeza o que vem. Mas o que já se sabe é suficiente para preocupar.
E o Brasil, historicamente, prefere se preocupar depois.
O que muda — e onde você vai sentir
O El Niño não afeta o Brasil de forma uniforme. Dependendo de onde você mora, o fenômeno chega de maneiras completamente diferentes — e às vezes opostas.
No Sul, o padrão histórico é de excesso. Mais chuva, mais risco de enchentes, mais deslizamentos. Se você acompanhou o que aconteceu no Rio Grande do Sul em 2024, já tem uma ideia do que esse excesso pode significar na prática — não apenas em vidas e lares destruídos, mas em cadeias produtivas paralisadas, em estradas cortadas, em colheitas perdidas, em estados que gastam por anos para reconstruir o que a água levou em dias.
No Norte e no Nordeste, o cenário costuma ser o inverso: menos chuva, secas mais longas, reservatórios mais baixos, maior pressão sobre o abastecimento de água e sobre a produção agrícola de regiões que já convivem estruturalmente com a escassez.
No Centro-Oeste e no Sudeste, os efeitos são mais difusos, mas igualmente reais: ondas de calor mais frequentes, veranicos que interrompem o crescimento das lavouras, irregularidade que torna o planejamento agrícola um exercício de adivinhação. E é justamente essa irregularidade — invisível, sem data marcada — que talvez seja o impacto mais custoso de todos.
O impacto silencioso sobre a economia
O Brasil é uma potência agrícola. Isso significa que qualquer instabilidade climática relevante não fica restrita ao campo — ela percorre toda a cadeia econômica até chegar na sua mesa.
Quem foi ao supermercado em 2022 sentiu isso na pele: a combinação de câmbio desvalorizado, guerra na Ucrânia e pressão climática fez os preços dos alimentos dispararem de um jeito que a renda da maioria dos brasileiros simplesmente não acompanhou. O El Niño não foi a causa única daquele momento, mas foi um dos ingredientes. E pode ser novamente.
O setor de energia é outro ponto de vulnerabilidade direta. O Brasil ainda depende de forma significativa das hidrelétricas. Reservatórios mais baixos significam menos geração, mais acionamento de termelétricas — que são caras, poluentes e ineficientes — e uma pressão que chega rapidamente na sua conta de luz e nos custos das empresas. Em 2021, o país já passou por uma crise hídrica severa que elevou as tarifas e levou o governo a pedir economia de energia. Não foi surpresa. Foi consequência previsível de um sistema dependente de chuva num ano em que a chuva não veio.
O problema é que choques climáticos raramente chegam sozinhos. Eles se somam ao que já está frágil — e amplificam.
Por que isso importa ainda mais agora
O possível retorno do El Niño ocorre num momento em que a margem de erro é pequena. O mundo convive com juros ainda elevados em diversas economias, desaceleração do crescimento, tensões geopolíticas que não dão trégua e cadeias produtivas que a pandemia deixou mais vulneráveis do que pareciam. O Brasil, por sua vez, tenta equilibrar crescimento, inflação e credibilidade fiscal num ambiente que não perdoa desequilíbrios.
Nesse contexto, um choque climático de intensidade relevante não é apenas um problema ambiental. É um amplificador. Pressiona a inflação num momento em que o Banco Central já monitora os preços com atenção. Reduz a produção agrícola num momento em que o agronegócio é um dos principais pilares do crescimento. Encarece a energia num momento em que os custos das empresas já estão pressionados.
É difícil saber exatamente o que vem. Previsão climática tem limites — e qualquer análise honesta precisa admitir isso. Mas o que os dados já mostram é suficiente para que governos, empresas e cada um de nós comece a pensar com antecedência.
Conclusão
O Pacífico está esquentando novamente.
E, embora o fenômeno aconteça a milhares de quilômetros daqui, você vai sentir os efeitos — na conta de luz, no preço dos alimentos, no comportamento da economia nos próximos meses. Talvez sem saber exatamente de onde veio.
O El Niño é um lembrete de que o clima não é pano de fundo da atividade econômica. É parte dela. Ignorar isso não faz o fenômeno desaparecer — só nos pega mais despreparados quando ele chega.
E ele está chegando.
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