Uma lição básica de matemática que o discurso do crescimento infinito insiste em ignorar
Introdução
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial
O crescimento econômico é frequentemente tratado como um objetivo absoluto. Governos, empresas e organizações são avaliados pela sua capacidade de crescer continuamente. No entanto, a história econômica mostra que crescer mais nem sempre significa ganhar mais — e, em muitos casos, o crescimento excessivo gera custos invisíveis que reduzem eficiência, poder de decisão e sustentabilidade.
O problema é que ela parte de uma suposição falsa: a de que o crescimento acontece em linha reta. Diferentemente do que sugerem narrativas simplificadas, cada vez mais populares nas redes sociais, os processos não são tão fáceis, e o mundo real raramente se organiza dessa forma. E não é preciso recorrer a teorias sofisticadas para entender isso. A própria matemática elementar, ensinada ainda na escola, descreve com muito mais precisão os limites do crescimento do que grande parte dos discursos atuais sobre escala e sucesso.
Desenvolvimento
Quando um sistema começa a funcionar — seja uma campanha de anúncios, uma empresa ou até uma estrutura de poder — os resultados iniciais costumam ser animadores. Tudo parece responder com facilidade. Os custos são baixos, o esforço rende mais do que o esperado e cada passo adiante reforça a sensação de que basta continuar para que o crescimento se sustente sozinho.
É justamente nesse momento que a armadilha se forma. Os primeiros ganhos criam a impressão de que o movimento é natural e contínuo, quando, na verdade, ele depende de condições muito específicas. Com o passar do tempo, essas condições mudam. O público mais interessado já foi alcançado, os custos sobem, a eficiência diminui. O sistema ainda cresce, mas já não responde como antes. Algo começa a ranger, mesmo que ainda não seja visível.
Em algum ponto, o investimento continua aumentando, mas o retorno deixa de acompanhar esse movimento. Primeiro, o lucro desacelera. Depois, começa a encolher. Por fim, transforma-se em prejuízo. Não por erro grosseiro ou falta de competência, mas porque o sistema entrou em saturação. Quem observa de fora pode chamar isso de azar ou má fase. Quem observa com mais atenção percebe que é apenas estrutura.
A fórmula de Bhaskara, ensinada ainda na escola, descreve com precisão o ponto em que o crescimento deixa de ser virtuoso e passa a ser excessivo.
A matemática ajuda a enxergar esse padrão com clareza. A relação entre esforço e resultado não cresce em linha reta, mas desenha uma curva: sobe no início, atinge um ponto máximo e, se for forçada, começa a cair. Existe um limite a partir do qual insistir deixa de ser racional. Ignorá-lo não é ousadia — é confundir persistência com teimosia.
Quando os resultados começam a cair, a reação quase automática é insistir. Colocar mais recursos, acelerar o ritmo, pressionar o sistema — como se o problema fosse falta de esforço. Mas insistir em um modelo já saturado é como acelerar um motor superaquecido: por alguns instantes ele responde, depois falha de vez.
O ponto central raramente está na quantidade de investimento, mas na estrutura que o sustenta. Enquanto o modelo permanece o mesmo, o resultado tende a repetir o mesmo padrão. Forçar a escala sem alterar a lógica interna não gera avanço; apenas antecipa o custo do erro. A matemática não pune, não julga, não adverte. Ela apenas descreve o que acontece quando limites são ignorados.
Conclusão
Talvez o maior erro do nosso tempo seja confundir crescimento com virtude. Crescer passou a ser visto como um fim em si, independentemente do custo, do contexto ou da estrutura que sustenta esse crescimento. Mas sistemas não colapsam por falta de ambição. Colapsam quando a ambição ignora os limites que a realidade impõe.
Entender que existe um ponto ótimo não é sinal de medo nem de pensamento pequeno. É sinal de maturidade. É reconhecer que insistir além do limite não é estratégia, é desgaste. Que nem todo avanço vem do impulso, e que muitas vezes o verdadeiro progresso começa quando se aceita parar, observar e reorganizar a estrutura. A matemática básica ensina isso sem alarde. Ela não promete expansão infinita, não oferece atalhos e não recompensa a teimosia. Apenas descreve, com frieza suficiente para ser honesta, o momento em que crescer deixa de ser virtude e passa a ser excesso.
No fim, respeitar os limites de um sistema não significa abdicar de crescer. Significa escolher como crescer — e, sobretudo, até onde. Quem entende a curva preserva o que construiu. Quem a ignora costuma descobrir tarde demais que nem todo crescimento é avanço.