Breve história econômica da Venezuela

Petróleo, Estado rentista e o colapso econômico mais profundo da América Latina em tempos de paz

Introdução

Imagem gerada por inteligência artificial

Poucos países ilustram de forma tão clara os dilemas do desenvolvimento econômico quanto a Venezuela. Detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, o país figurou, durante boa parte do século XX, entre as economias mais ricas da América Latina em termos de renda per capita. Ainda assim, entrou no século XXI como um dos casos mais profundos de colapso econômico já registrados fora de contextos de guerra.

Compreender essa trajetória exige ir além de governos específicos ou de eventos recentes. Trata-se de uma história marcada pela dependência estrutural de recursos naturais, pela consolidação de um Estado rentista e pela erosão progressiva de instituições econômicas e políticas — um processo amplamente documentado por dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial, do Our World in Data e por análises acadêmicas especializadas.

O petróleo e a formação do Estado rentista

A descoberta de grandes campos de petróleo nas primeiras décadas do século XX transformou radicalmente a economia venezuelana. Em poucas décadas, o país deixou de ser majoritariamente agrário para se tornar um dos principais exportadores globais de petróleo.

Esse processo impulsionou urbanização acelerada e crescimento econômico expressivo. Séries históricas consolidadas pelo Projeto Maddison, hoje reunidas no Our World in Data, indicam que, já nos anos 1960, a renda per capita venezuelana se aproximava da de países desenvolvidos.

Contudo, esse crescimento ocorreu sob um arranjo institucional específico: o Estado passou a se financiar majoritariamente pela renda do petróleo, reduzindo a necessidade de tributação ampla da sociedade. Esse padrão moldou profundamente as instituições fiscais e políticas, enfraquecendo mecanismos de disciplina orçamentária e de responsabilização do poder público.

Expansão democrática e dependência estrutural

Após 1958, a Venezuela viveu um período raro de estabilidade democrática na América Latina. A renda petrolífera financiou políticas públicas amplas, expansão do gasto social e investimentos em infraestrutura.

O boom do petróleo nos anos 1970 reforçou a crença de prosperidade permanente. Dados do Banco Mundial mostram que o petróleo passou a dominar exportações, arrecadação estatal e financiamento do gasto público.

Pouco se avançou, porém, na diversificação produtiva. O crescimento tornou-se cada vez mais dependente da capacidade do Estado de redistribuir renda, não de gerar produtividade sustentável.

Fragilidades expostas e estagnação prolongada

A queda dos preços do petróleo nos anos 1980 revelou as fragilidades do modelo. A economia entrou em estagnação prolongada, acompanhada de inflação elevada, aumento do endividamento e deterioração fiscal.

Segundo dados do FMI e do Banco Mundial, a renda per capita venezuelana iniciou uma trajetória de queda persistente a partir desse período — um movimento incomum para um país que partia de níveis relativamente elevados de riqueza. Episódios de instabilidade social, como o Caracazo em 1989, evidenciaram o esgotamento do pacto social financiado pela renda do petróleo.

Figura 1 — Venezuela: trajetória do PIB per capita (1990–2021, índice)
Fonte: Projeto Maddison / Our World in Data. Elaboração própria.

O colapso fiscal e monetário do Estado rentista

 

Uma contribuição central para compreender esse processo é apresentada por Diego Restuccia, da University of Toronto e pesquisador associado ao NBER, no estudo The Monetary and Fiscal History of Venezuela (1960–2016).

O trabalho demonstra que o colapso venezuelano não decorreu apenas de déficits fiscais tradicionais ou de choques externos. O fator decisivo foi o crescimento persistente de transferências extraordinárias, sobretudo para empresas estatais ineficientes e fundos paralelos, ampliadas em períodos de alta do petróleo.

Segundo Restuccia, a Venezuela partiu de um patamar elevado de renda — chegando a mais de 80% da renda per capita dos Estados Unidos nos anos 1960 — e entrou em declínio a partir da deterioração institucional do uso da renda petrolífera. Nos estágios finais, a política monetária passou a financiar diretamente o Estado, transformando a inflação em um instrumento fiscal, com efeitos devastadores sobre a renda real e a previsibilidade econômica.

Quando a crise econômica se transforma em crise de Estado

O colapso econômico não ocorreu isoladamente. Em The crisis in Venezuela: Drivers, transitions, and pathways, Benedicte Bull e Antulio Rosales, da Universidade de Oslo, demonstram que a deterioração econômica esteve profundamente entrelaçada à erosão institucional e política.

Entre 2013 e 2019, a Venezuela perdeu mais de 60% de seu PIB, viu serviços públicos colapsarem e experimentou migração em massa — tudo isso sem guerra civil. O enfraquecimento econômico alimentou a concentração de poder, a militarização de setores produtivos e a informalização crescente da economia.

A deterioração econômica não se limitou a indicadores macroeconômicos. Em economias modernas, o colapso fiscal e produtivo costuma se refletir rapidamente na capacidade do Estado de prover serviços básicos. Na Venezuela, essa perda de capacidade institucional tornou-se visível também em indicadores sociais fundamentais, como a mortalidade infantil.

Figura 2 — Mortalidade infantil na Venezuela (1990–2021)
Fonte: UN IGME (UNICEF, OMS, Banco Mundial, ONU), via Our World in Data. Elaboração própria.

 

Como mostra a Figura 2, a reversão da tendência histórica de queda da mortalidade infantil coincide com o período de colapso econômico mais profundo.

Nesse contexto, o autoritarismo emerge menos como projeto ideológico isolado e mais como estratégia de sobrevivência de um Estado rentista em colapso, incapaz de sustentar seu pacto social original.

Um contrafactual revelador

Um dos resultados mais ilustrativos do estudo de Restuccia é um exercício contrafactual: na ausência das transferências extraordinárias e do uso político da renda petrolífera, a Venezuela teria acumulado ativos públicos equivalentes a mais de 180% do PIB ao longo do período analisado — patamar comparável ao dos maiores fundos soberanos do mundo.

O colapso, portanto, não decorre da abundância de recursos naturais, mas da forma como essa abundância foi institucionalmente administrada.

Conclusão

A história econômica da Venezuela é, acima de tudo, uma história de dependência estrutural, não de escassez. O país não empobreceu por falta de recursos naturais, mas por confiar excessivamente neles como base exclusiva de financiamento do Estado e de estabilidade social.

Dados empíricos do FMI, do Banco Mundial e do Our World in Data, aliados à literatura acadêmica especializada, convergem em um ponto central: crescimento sustentável exige instituições capazes de atravessar ciclos adversos, diversificação produtiva e disciplina fiscal. Quando a renda substitui as instituições, o colapso deixa de ser um risco e se torna apenas uma questão de tempo.


Nota metodológica

As análises apresentadas neste artigo baseiam-se em séries históricas e indicadores macroeconômicos do Fundo Monetário Internacional (International Monetary Fund), dos World Development Indicators do Banco Mundial e das reconstruções históricas consolidadas no Our World in Data (Projeto Maddison).
A interpretação institucional foi enriquecida por dois estudos acadêmicos centrais: The Monetary and Fiscal History of Venezuela (1960–2016), de Diego Restuccia (University of Toronto / NBER), e The crisis in Venezuela: Drivers, transitions, and pathways, de Benedicte Bull e Antulio Rosales (University of Oslo / ERLACS-CEDLA).

Os gráficos apresentam tendências de longo prazo com base em séries consolidadas de instituições internacionais, utilizadas para análise estrutural e comparativa.


Referências

  • Restuccia, Diego. The Monetary and Fiscal History of Venezuela (1960–2016). University of Toronto; National Bureau of Economic Research (NBER).

  • Bull, Benedicte; Rosales, Antulio. The crisis in Venezuela: Drivers, transitions, and pathways. European Review of Latin American and Caribbean Studies (ERLACS); CEDLA, University of Oslo.

  • Fundo Monetário Internacional (IMF). World Economic Outlook Database. Disponível em: https://www.imf.org/en/Publications/WEO/weo-database

  • Banco Mundial (World Bank). World Development Indicators. Disponível em: https://databank.worldbank.org/source/world-development-indicators

  • Our World in Data. Economic and social indicators for Venezuela (Maddison Project; UN IGME). Disponível em: https://ourworldindata.org

  • United Nations Inter-agency Group for Child Mortality Estimation (UN IGME). Child mortality estimates. UNICEF; WHO; World Bank; United Nations Population Division.

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