Um crescente desconforto internacional e o temor de conflitos de grandes escalas permeiam o ano de 2026
INTRODUÇÃO — UMA NOVA GUERRA FRIA?
A virada do século XXI foi vista por boa parte da população mundial com euforia.
O conflito que dividiu o mundo por mais de quarenta anos, a Guerra Fria, havia terminado, deixando os Estados Unidos e o modelo capitalista de mercado como aparentes vencedores do xadrez de influência global.
As novas tecnologias, embora despertassem certo receio, alimentavam expectativas de ganhos inéditos de produtividade e prosperidade. Ao mesmo tempo, o avanço do multilateralismo no pós-Segunda Guerra, reforçado com o colapso da União Soviética, criava a sensação de que os grandes riscos internacionais haviam sido, senão eliminados, ao menos domesticados.
Todavia, essa percepção começou a ruir em 11 de setembro de 2001, quando a soberania dos Estados Unidos foi colocada à prova por uma série de ataques coordenados pela Al-Qaeda. A partir daquele momento, a ideia de invulnerabilidade americana começou a se desfazer.
Enquanto isso, do outro lado do globo, uma transformação silenciosa avançava. A China, que no início dos anos 1980 ainda tinha cerca de 90% de sua população vivendo em situação de extrema pobreza, passou a crescer em ritmo acelerado nas décadas seguintes, alterando profundamente o equilíbrio econômico e geopolítico internacional.
Passados cerca de 25 anos, torna-se cada vez mais claro que os conflitos e tensões iniciados naquele período atingem agora um ponto de maturação. De um lado, os Estados Unidos, uma potência que jamais aceitou ser atacada ou questionada em sua primazia. De outro, a China, metódica, paciente e intransigente, que busca retomar o papel de “Centro do Mundo”, mas que hoje enfrenta um adversário crescente: suas próprias contradições internas. Ao fundo, a Rússia, herdeira de um passado imperial, luta para recuperar parte da influência perdida após o fim da Guerra Fria.
Há um claro desconforto, receio e certeza internacional de o Mercado, que fora visto por muito tempo como mitigador de rusgas entre nações e grupos étnicos, esteja cada vez mais aprofundando os dilemas e problemas já conhecidos.
É nesse contexto que Ian Bremmer, cientista político e especialista em assuntos internacionais, há alguns anos cunhou o conceito de G-Zero: não um mundo em anarquia total, mas um sistema marcado pela ausência de liderança, pelo enfraquecimento das regras internacionais e pela incapacidade de produzir coordenação efetiva.
Fóruns como o G-7 e o G-20 continuam existindo, mas tornaram-se cada vez menos relevantes diante do aumento do custo de vida, da violência urbana e do descontentamento social. Em resumo, um estado de profunda anomia e desconfiança para com até mesmo parceiros comerciais históricos.
É dentro desse mundo fragmentado, menos cooperativo e estruturalmente instável que os principais riscos globais de 2026 ganham forma. Sendo assim, aqui estão os Top Riscos de 2026, avaliados pela Eurasia Group.
10. A água como arma geopolítica
A água entra em 2026 não como um novo fator de risco, mas como um recurso antigo finalmente absorvido pelo léxico do poder. O que muda não é apenas a intensidade da escassez, mas o ambiente político em que ela passa a operar. Em um mundo que saiu do pós-Guerra Fria acreditando que problemas estruturais poderiam ser administrados por instituições multilaterais e soluções técnicas, a água simboliza o colapso silencioso dessa premissa. Ela deixa de ser tratada como bem compartilhado, sendo incorporada, de forma explícita, ao cálculo estratégico dos Estados.
O dado estrutural é conhecido, mas seu significado político é frequentemente subestimado. Bilhões de pessoas já vivem em regiões com estresse hídrico significativo, e a tendência é de agravamento ao longo da década, impulsionada por mudanças climáticas, crescimento populacional e urbanização desordenada. No entanto, a escassez em si não explica o risco. O ponto central está na assimetria de controle. Grandes sistemas fluviais atravessam fronteiras frágeis, conectando Estados com capacidades políticas, econômicas e militares profundamente desiguais. Num sistema internacional menos regulado, essa assimetria deixa de ser mitigada por normas, sendo explorada como vantagem estratégica.
O risco real é mais compatível com o mundo descrito pelo G-Zero: pressão gradual, difusa e difícil de arbitrar. Países que controlam nascentes, barragens e fluxos iniciais de rios adquirem capacidade de influenciar o comportamento de vizinhos sem recorrer a sanções formais ou força militar. Grupos armados africanos afiliados a Al Qaeda, como o Jama’a Nusrat ul-Islam wa al-Muslimin (JNIM), que exerce ativamente sua influência na região do Magrebe e do Sahel e controla pontos hídricos estratégicos de ambas as áreas já muito áridas.
Projetos de infraestrutura são apresentados como iniciativas de desenvolvimento soberano, mas carregam implicações geopolíticas claras. Como grandes construções hídricas da Índia, na Bacia do Indo, que afetam mais de 80% da agricultura do Paquistão; e da China, com seu ambicioso mega-projeto hidrelétrico no alto do rio Brahmaputra, que consequentemente afeta tanto países como Índia e Paquistão. Em um ambiente sem liderança global eficaz, a distinção entre política doméstica legítima e coerção estratégica torna-se deliberadamente ambígua.
Essa dinâmica revela uma mudança importante em relação ao período de euforia pós-Guerra Fria descrito na introdução. Durante aquele momento, disputas por recursos naturais eram tratadas como exceções administráveis, passíveis de mediação técnica e diplomática. Em 2026, elas passam a ser sintomas de um sistema mais amplo de fragmentação, no qual Estados agem com horizonte curto e priorizam ganhos relativos. A água, nesse contexto, não é causa isolada de instabilidade, mas um multiplicador de tensões já existentes — econômicas, políticas e sociais.
Há também um componente interno que reforça o caráter sistêmico do risco. Crises hídricas afetam diretamente o custo de vida, a produção de alimentos e a estabilidade urbana, pressionando governos que já operam com baixa legitimidade. Em sociedades marcadas por desigualdade e serviços públicos frágeis, a escassez de água tende a acelerar processos de descontentamento social, deslocamento populacional e radicalização política.
O que torna esse risco particularmente revelador é o fato de ele expor a falência de uma lógica que dominou o pensamento global por décadas: a ideia de que problemas essenciais à sobrevivência humana seriam, por definição, tratados cooperativamente. No mundo atual, essa expectativa se dissolve. Recursos vitais passam a ser vistos não como fundamentos de interdependência, mas como ativos estratégicos. A água entra no mesmo campo semântico da energia, das cadeias de suprimento e da tecnologia — elementos a serem protegidos, instrumentalizados e, quando conveniente, utilizados como alavanca de poder.
Não se trata, portanto, de um risco espetacular ou imediatamente visível. A água não provoca manchetes diárias nem choques repentinos. Sua força está justamente no contrário: na capacidade de operar abaixo do radar, moldando comportamentos estatais, aprofundando assimetrias regionais e corroendo a cooperação internacional sem jamais cruzar claramente a linha do conflito aberto. A ausência de coordenação internacional e a primazia do interesse doméstico são suficientes para torná-la um dos vetores mais instrutivos — e inquietantes — do mundo que se consolida em 2026.
A água, afinal, não se transforma em arma porque se tornou mais escassa. Ela se torna arma porque o mundo perdeu a capacidade de tratá-la como bem comum. E essa perda diz menos sobre hidrologia e mais sobre o tipo de ordem internacional que emergiu após décadas de rupturas, frustrações e escolhas políticas que enfraqueceram os mecanismos de cooperação coletiva.
9. O USMCA zumbi e a erosão das regras comerciais
O risco associado ao USMCA em 2026 não está em sua implosão, mas em algo mais corrosivo: a sobrevivência institucional sem função governante. O acordo que substituiu o NAFTA não será renegociado amplamente, tampouco será formalmente abandonado. Ele seguirá existindo como uma arquitetura jurídica que ainda enquadra o comércio na América do Norte, mas que já não organiza expectativas nem reduz incertezas. O adjetivo “zumbi” captura precisamente essa condição: um acordo que caminha, mas não governa.
Esse estado de suspensão permanente não é um acidente, nem uma anomalia regional. Ele reflete uma mudança mais profunda no modo como Estados lidam com regras internacionais em um mundo pós-euforia do pós-Guerra Fria. Durante décadas, tratados comerciais funcionaram como instrumentos de previsibilidade: ofereciam horizontes claros para investimento, integração produtiva e planejamento estatal. Pressupunham compromisso com regras compartilhadas e aceitação de custos políticos no curto prazo em troca de estabilidade no longo prazo. Em 2026, esse pressuposto já não sustenta decisões políticas centrais.
Quando entrou em vigor em 2020, o USMCA já deixava claro desde as suas aspirações que ele beneficiaria amplamente os EUA, visto que se analisarmos o PIB destes países, há uma dependência muito assimétrica, onde quase 30% do PIB do México depende dos EUA e quase 20% do Canadá. Do outro lado, o PIB dos EUA depende, de ambos os lados, menos de 1,5%.
Segundo o relatório do Eurasia Group, o USMCA permanece em vigor justamente porque ninguém quer assumir o custo de encerrá-lo, mas também porque ninguém está disposto a reforçá-lo. Atualizar regras exige negociação, concessões e capital político — recursos escassos em um ambiente dominado por agendas domésticas e polarização. O resultado é a institucionalização da ambiguidade. Empresas continuam operando sob o acordo, mas incorporam risco político recorrente em decisões que antes eram estruturais. Cadeias de suprimento são redesenhadas não para maximizar eficiência, mas para minimizar exposição a choques regulatórios repentinos.
Um sistema internacional sem liderança clara, acordos deixam de ser compromissos duradouros e são ferramentas contingentes, sujeitas a interpretações oportunistas. Tarifas, regras de origem e cláusulas regulatórias tornam-se instrumentos de barganha doméstica, mobilizados conforme necessidades políticas internas. O acordo existe, mas sua aplicação torna-se fluida — e essa fluidez, por si só, converte-se em fonte de poder.
Há um efeito sistêmico importante nessa erosão funcional das regras comerciais. Quando um acordo central como o USMCA opera em estado zumbi, a mensagem implícita é absorvida por outros atores: tratados não garantem mais estabilidade; garantem apenas uma base mínima para disputa. Isso reforça tendências já visíveis de outros riscos, como o avanço do capitalismo de Estado, a politização das cadeias de suprimento e a fragmentação tecnológica. O comércio deixa de atuar como amortecedor de tensões e é mais um campo de competição estratégica.
O impacto distributivo dessa dinâmica também merece atenção. Grandes corporações, com capacidade de diversificação geográfica e influência política, conseguem absorver a incerteza regulatória. Pequenas e médias empresas, por outro lado, ficam mais expostas a mudanças súbitas e interpretações arbitrárias das regras. O efeito agregado é um comércio internacional mais concentrado, menos inclusivo e mais suscetível a choques políticos — um terreno fértil para o descontentamento social que alimenta, por sua vez, agendas nacionalistas e protecionistas.
Do ponto de vista histórico, o USMCA zumbi simboliza o esgotamento de uma lógica que marcou o período imediatamente posterior ao fim da Guerra Fria. A crença de que a integração econômica produziria convergência política e reduziria conflitos mostrou-se excessivamente otimista. Em 2026, o comércio internacional continua essencial, mas já não é visto como mecanismo neutro de cooperação. Ele passa a ser tratado como extensão da política, sujeito às mesmas pressões, ciclos eleitorais e disputas de poder que moldam o restante do sistema internacional.
Essa transição de ferramenta de cooperação para extensão da política ganha contornos práticos em 2026, ano em que o acordo enfrenta sua primeira cláusula obrigatória de revisão sexenal. Esse marco não será apenas um procedimento burocrático, mas o teste definitivo da resiliência — ou da irrelevância — do USMCA.
O risco, portanto, não reside numa ruptura abrupta do comércio norte-americano, mas na normalização de um ambiente em que regras existem sem oferecer segurança real. Num mundo já marcado por rivalidades estratégicas, fragilidade institucional e ausência de coordenação global, essa erosão silenciosa das normas adiciona mais uma camada de instabilidade. O USMCA não entra para a história como um fracasso espetacular, mas como um sintoma persistente de uma ordem internacional que ainda mantém suas estruturas formais, mas perdeu a capacidade de fazê-las funcionar plenamente.
8. Quando a inteligência artificial começa a corroer o humano
Em 2026, a inteligência artificial deixa de ser tratada como promessa tecnológica ou ameaça futurista e é encarada como força social já incorporada ao cotidiano, com efeitos políticos e institucionais difíceis de conter. O risco aqui não está em máquinas autônomas fora de controle, mas no desgaste cumulativo das capacidades humanas num ambiente já marcado por fragilidade institucional, polarização e ausência de coordenação global.
Durante o período de euforia pós-Guerra Fria, novas tecnologias foram frequentemente associadas a ganhos de eficiência, integração e democratização. A digitalização parecia capaz de reduzir assimetrias de informação e ampliar a participação cívica. O que se revelou ao longo do tempo foi um padrão mais ambíguo: tecnologias não corrigem falhas estruturais; elas as amplificam. Em sistemas com instituições fortes, esse efeito pode ser administrado. Em sistemas enfraquecidos, torna-se desestabilizador.
A IA emerge e se difunde exatamente nesse segundo contexto. Sua adoção acelerada ocorre em sociedades com baixa confiança pública, ciclos políticos curtos e modelos de negócio baseados na captura de atenção. O relatório chama atenção para o descompasso entre a velocidade da inovação e a capacidade de governança. Estados, empresas e cidadãos passam a depender de sistemas algorítmicos opacos para mediar decisões relevantes — da produção de conteúdo à alocação de recursos — sem que exista clareza sobre incentivos, vieses ou consequências de longo prazo.
Esse risco não é abstrato. A automação de processos cognitivos altera a forma como indivíduos consomem informação, avaliam riscos e constroem opiniões. Em ambientes políticos já polarizados, a personalização algorítmica intensifica bolhas informacionais, reduz o espaço para consenso e fragiliza ainda mais o debate público. A distinção entre informação, persuasão e manipulação torna-se difusa, corroendo um dos pilares centrais das democracias modernas: a capacidade de julgamento autônomo dos cidadãos.
Há também uma dimensão econômica que reforça esse processo. A expectativa de que a IA geraria ganhos rápidos de produtividade convive, em 2026, com frustrações crescentes. Muitos desses ganhos não se materializam no curto prazo, pressionando empresas e investidores a buscar retornos por meio de monetização agressiva, automação de decisões e redução de custos — mesmo quando isso implica perdas sociais e institucionais. O resultado é um ecossistema no qual a tecnologia passa a “consumir” seus próprios usuários, não por intenção deliberada, mas por desenho de incentivos.
No plano internacional, o risco se agrava pela ausência de coordenação. Num mundo assim, não há padrões globais robustos de governança da IA. Cada país avança conforme seus interesses estratégicos, tratando a tecnologia não apenas como ferramenta econômica, mas como ativo de poder. Essa lógica de competição reduz o espaço para acordos sobre transparência, ética e limites de uso, subordinando preocupações sociais à corrida por vantagem geopolítica.
Internamente, governos também se veem tentados a utilizar sistemas de IA para ampliar capacidade de vigilância, controle e gestão populacional, especialmente em contextos de instabilidade social. O risco não é apenas autoritário; é funcional. Ao delegar decisões complexas a sistemas automatizados, Estados reduzem sua própria capacidade de julgamento político, tornando-se dependentes de ferramentas que não compreendem plenamente. Em um ambiente já caracterizado por decisões de curto prazo, isso aprofunda a fragilidade institucional.
O aspecto mais inquietante desse risco é sua natureza incremental. Não há um momento claro de ruptura, nenhum evento único que sinalize o problema. Pequenas delegações de decisão, dependência crescente de recomendações algorítmicas e erosão gradual do pensamento crítico produzem efeitos que só se tornam visíveis quando já estão profundamente enraizados num sistema internacional incapaz de coordenar respostas coletivas, esses efeitos se espalham sem resistência organizada.
A inteligência artificial, portanto, não representa um risco porque é poderosa demais, mas porque opera em um mundo incapaz de absorver poder de forma equilibrada. Ela não cria a fragmentação política, a desconfiança institucional ou a competição estratégica exacerbada; ela as acelera. Em 2026, a IA funciona como espelho e amplificador das fragilidades do sistema internacional — um sistema que, após décadas de rupturas e frustrações, já não consegue proteger plenamente aquilo que deveria ser central: a autonomia humana.
O risco, no fim, não é tecnológico no sentido clássico. É civilizacional. E sua gravidade decorre menos do que a IA pode fazer sozinha e mais do que sociedades, Estados e instituições deixam de fazer quando passam a depender dela em um mundo que já perdeu a capacidade de governar coletivamente seus próprios avanços.
7. A armadilha deflacionária da China
A deflação chinesa em 2026 não representa um risco porque ameaça provocar um colapso imediato, mas porque revela uma mudança deliberada de prioridades no interior do regime. Pequim dispõe de instrumentos para estimular a economia — fiscais, monetários e regulatórios — e, ainda assim, opta por não acioná-los de forma ampla. Essa escolha não decorre de incapacidade técnica, mas de cálculo político. A deflação torna-se, assim, um custo aceitável dentro de uma estratégia mais ampla de controle e reorientação do modelo de poder.
A deflação — queda persistente de preços que paralisa consumo e investimento — tornou-se um traço estrutural da economia chinesa. À primeira vista, ela pode parecer benéfica ao consumidor. Na prática, porém, trata-se de um dos ciclos macroeconômicos mais difíceis de reverter. A expectativa contínua de preços mais baixos desestimula o consumo, reduz receitas empresariais e pressiona salários e níveis de emprego, criando um ambiente prolongado de estagnação econômica.
A China encontra-se nesse deflacionário já há dois anos o que é alarmante, pois nenhuma grande economia passou tanto tempo nesta situação. A renda do chinês hoje em dia estagnou em US$5.800,00 o que para um país que foca em consumo interno é muito baixo. Para fins comparativos, na China o consumo das famílias representa apenas menos de 40% do PIB; nos EUA esse percentual chega a 70%.
Durante décadas, o crescimento acelerado foi o principal pilar da legitimidade do Estado chinês. Ele sustentou a promessa implícita de prosperidade em troca de obediência política e funcionou, externamente, como estabilizador do sistema econômico global. Em 2026, essa lógica se enfraquece. O crescimento deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser subordinado a outros objetivos: disciplina social, segurança nacional e supremacia tecnológica. Essa transição ajuda a explicar por que a deflação, em vez de ser combatida com urgência, é tolerada — desde que não ameace a estabilidade do poder central.
O impacto dessa escolha ultrapassa as fronteiras da China. Com uma economia que responde por uma fatia significativa do PIB mundial e ocupa posição central em cadeias globais de suprimento, a desaceleração chinesa exporta pressões deflacionárias para o restante do sistema. Excesso de capacidade industrial, preços mais baixos de manufaturados e competição agressiva afetam desde a indústria europeia até economias emergentes dependentes de commodities. Em um mundo já marcado por fragmentação comercial e politização das cadeias produtivas, esse choque adicional intensifica disputas e incentiva respostas protecionistas.
O elemento mais revelador, contudo, está na lógica política que sustenta essa postura. Às vésperas do próximo congresso do Partido, a prioridade de Xi Jinping não é restaurar o dinamismo econômico a qualquer custo, mas reduzir riscos políticos internos. Estímulos amplos ao consumo, reformas estruturais profundas ou abertura econômica mais ousada implicariam redistribuição de renda, maior autonomia social e potenciais focos de instabilidade — exatamente o tipo de incerteza que o regime busca evitar. A deflação, nesse contexto, é vista como gerenciável; a perda de controle, não.
A pressão deflacionária chinesa reforça a erosão das regras comerciais, alimenta a politização do comércio e intensifica a disputa por setores estratégicos ligados à transição energética e à tecnologia. Ao mesmo tempo, reduz a margem de manobra de países que, durante anos, utilizaram a demanda chinesa como amortecedor de crises internas. O resultado é um sistema internacional mais pesado, menos dinâmico e mais propenso a choques assimétricos.
Há também um efeito psicológico que não deve ser subestimado. Por muito tempo, a ideia de que “a China sempre cresce” funcionou como âncora de expectativas para investidores, governos e empresas. A normalização de um crescimento estruturalmente mais baixo — e conscientemente contido — altera esse imaginário. A percepção de que Pequim não está disposta a sustentar o crescimento global adiciona mais uma camada de incerteza a um sistema já pressionado por rivalidades estratégicas e fragilidade institucional.
O risco, portanto, não reside na deflação como fenômeno econômico isolado, mas no que ela sinaliza sobre a transformação do modelo chinês. Ao aceitar custos econômicos em nome de objetivos políticos de longo prazo, o regime redefine sua relação com o sistema internacional. Em um ambiente já marcado pela ausência de liderança global e pela competição entre grandes potências, essa redefinição não ocorre de forma neutra. Ela se difunde, amplificando tensões, alimentando disputas comerciais e reforçando a sensação de que o mundo perdeu um de seus principais estabilizadores.
Em 2026, a China não representa um risco porque está à beira da fraqueza, mas porque está mudando conscientemente as regras internas que sustentaram sua ascensão. E, em um sistema internacional incapaz de coordenar respostas coletivas, o resto do mundo é obrigado a se adaptar a essa mudança sem garantias, sem amortecedores e sem um centro claro de estabilização.
6. O capitalismo de Estado à moda americana
O risco associado ao “capitalismo de Estado à americana” não está no retorno da política industrial em si, mas na forma como ela passa a operar em um ambiente de polarização extrema e instituições tensionadas. Em 2026, os Estados Unidos aprofundam uma mudança iniciada anos antes: o Estado deixa de ser apenas regulador e passa a atuar como árbitro seletivo, definindo vencedores e perdedores conforme critérios que misturam segurança nacional, alinhamento político e cálculo eleitoral.
Durante o auge do pós-Guerra Fria, a economia americana se beneficiou de um ativo intangível poderoso: previsibilidade institucional. Regras relativamente estáveis, separação clara entre política e mercado e confiança na aplicação impessoal da lei sustentaram a centralidade dos Estados Unidos no sistema financeiro e comercial global. Porém, as movimentações dos EUA nas últimas décadas sugerem que esse ativo começou a se desgastar. A intervenção estatal deixa de ser excepcional e passa a ser personalista e transacional, reduzindo a clareza sobre quais critérios realmente orientam decisões econômicas estratégicas.
Essa transformação precisa ser lida à luz do processo histórico descrito na sua introdução. O choque do 11 de Setembro inaugurou uma era em que segurança nacional passou a justificar medidas extraordinárias. Crises financeiras, disputas tecnológicas e rivalidades geopolíticas ampliaram esse repertório. Em 2026, a fronteira entre política econômica e política de poder torna-se difusa. Incentivos, subsídios, barreiras regulatórias e contratos públicos são mobilizados não apenas para fortalecer setores estratégicos, mas para recompensar aliados e pressionar adversários — internos e externos.
O relatório aponta que empresas alinhadas às prioridades do governo tendem a encontrar caminhos mais favoráveis, enquanto aquelas percebidas como desalinhadas enfrentam maior incerteza regulatória. Esse ambiente não elimina o dinamismo do mercado americano, mas altera profundamente seu funcionamento. Investimentos passam a incorporar risco político doméstico de curto prazo, e decisões estratégicas são moldadas menos por fundamentos econômicos e mais pela leitura do cenário político. O mercado continua grande e atrativo, mas torna-se menos transparente e mais contingente.
O impacto sistêmico dessa mudança vai além das fronteiras dos Estados Unidos. Ao normalizar práticas seletivas de intervenção econômica, Washington enfraquece a autoridade normativa que sustentou sua liderança global. Países que antes eram pressionados a reduzir subsídios, abrir mercados e respeitar regras multilaterais passam a questionar a legitimidade dessas exigências. O resultado é uma convergência silenciosa: mais Estados adotam políticas industriais agressivas, mais cadeias produtivas se fragmentam e o comércio internacional se politiza ainda mais.
O capitalismo de Estado à americana reforça a erosão das regras comerciais, intensifica a disputa por tecnologias críticas e acelera a fragmentação das cadeias de suprimento. Ao mesmo tempo, ele dialoga com a revolução política interna nos Estados Unidos, na medida em que decisões econômicas passam a ser instrumentalizadas como extensões da luta política doméstica. A economia deixa de ser amortecedor de conflitos e passa a ser campo de batalha.
Há também um efeito distributivo interno que não pode ser ignorado. A intervenção seletiva tende a beneficiar setores organizados e empresas com acesso direto ao poder político, aprofundando desigualdades e alimentando percepções de injustiça. Esse descontentamento, por sua vez, retroalimenta a polarização que justifica novas intervenções. Forma-se um ciclo no qual política e economia se contaminam mutuamente, corroendo a confiança institucional que sustentava o modelo americano.
O risco, portanto, não é que os Estados Unidos abandonem o mercado, mas que abandonem a previsibilidade. Em um mundo sem previsibilidade, onde regras já perderam força e a coordenação global é frágil, a transformação do principal polo econômico em um sistema mais personalista e transacional tem efeitos desproporcionais. Ela sinaliza que nem mesmo o centro do sistema acredita plenamente nas normas que ajudou a construir.
Em 2026, o capitalismo de Estado à moda americana não representa uma ruptura espetacular, mas uma inflexão silenciosa. Ele preserva a aparência de dinamismo enquanto corrói, por dentro, os fundamentos institucionais que deram ao país sua posição singular no sistema internacional. Em um ambiente já marcado pela ausência de liderança global, essa inflexão adiciona mais uma camada de incerteza — não apenas sobre como a economia americana funcionará, mas sobre quais regras ainda valem quando o próprio árbitro decide jogá-las conforme o contexto.
5. A segunda frente da Rússia
Em 2026, o risco representado pela Rússia não se concentra na abertura de um confronto militar direto com a OTAN, mas na consolidação de uma estratégia de desgaste político prolongado. Moscou conhece seus limites econômicos e industriais e sabe que uma escalada convencional ampla seria insustentável no médio prazo. A resposta, portanto, não é intensificar a guerra no sentido clássico, mas expandir o conflito para além do campo de batalha.
Essa “segunda frente” não se manifesta em tanques ou linhas de frente claramente delimitadas. Ela opera no terreno mais vulnerável das democracias europeias: suas sociedades. Campanhas de desinformação, ataques cibernéticos, sabotagens pontuais de infraestrutura crítica e o estímulo indireto a forças políticas antiestablishment compõem uma estratégia cujo objetivo não é a vitória militar, mas a paralisia política. Não se trata de convencer, mas de confundir; não de derrotar, mas de cansar.
Essa abordagem é inseparável da trajetória histórica russa no pós-Guerra Fria. A perda de influência, a expansão da OTAN e a marginalização econômica foram internalizadas pelo Kremlin como uma sequência de derrotas estratégicas. A guerra na Ucrânia surge, assim, menos como um conflito territorial e mais como uma tentativa de reposicionamento simbólico. Em 2026, contudo, Moscou reconhece que sua capacidade de impor resultados no campo militar é limitada. O foco desloca-se para aquilo que ainda pode explorar: as fragilidades internas do adversário.
O relatório aponta que o timing dessa estratégia é crucial. A Europa entra em 2026 politicamente fragilizada, pressionada por inflação persistente, crise migratória, fadiga em relação ao conflito ucraniano e crescente polarização eleitoral. Nesse contexto, operações híbridas russas funcionam como multiplicadores de tensões já existentes. O risco não está numa ruptura imediata, mas na erosão lenta da coesão política necessária para sustentar apoio à Ucrânia e à própria arquitetura de segurança europeia.
Num sistema internacional sem liderança clara, não há resposta coordenada e rápida a esse tipo de estratégia. Cada país reage conforme seus próprios limites políticos internos, o que cria brechas exploráveis ao longo do tempo. A Rússia, mesmo economicamente enfraquecida, compensa essa fraqueza com persistência estratégica. Em um mundo fragmentado, persistência pode ser suficiente para alterar equilíbrios.
Há também um cálculo doméstico importante. Ao manter o conflito em nível híbrido, o Kremlin reduz o risco de escaladas que poderiam gerar custos internos incontroláveis. A guerra torna-se um estado permanente de baixa intensidade, útil para justificar repressão interna, mobilização nacionalista e controle social. Assim, a segunda frente não é apenas externa; ela também reforça a estabilidade do regime no plano interno.
O risco, portanto, não é que a Rússia vença militarmente a Europa, mas que consiga desorganizar sua capacidade de decisão coletiva. Num ambiente político já marcado por desconfiança e fragmentação, isso pode ser suficiente para alterar o curso do conflito sem grandes batalhas decisivas. O desgaste, nesse caso, é a própria estratégia.
Em 2026, a Rússia representa um risco não porque seja mais forte do que aparenta, mas porque aprendeu a operar em um sistema internacional que recompensa quem sabe explorar falhas institucionais e divisões sociais. Em um mundo onde a coordenação é frágil e o tempo trabalha contra democracias pressionadas internamente, a segunda frente russa não precisa vencer — basta não perder, enquanto o outro lado se esgota.
4. A Europa politicamente cercada
O risco europeu em 2026 não reside em um colapso institucional súbito, nem em uma ruptura aberta da ordem democrática. Ele está em algo mais difícil de identificar e, justamente por isso, mais corrosivo: a perda gradual de capacidade política. França, Alemanha e Reino Unido entram no ano com governos fragilizados, baixa legitimidade social e sistemas políticos pressionados simultaneamente por crises econômicas, disputas identitárias e polarização eleitoral. O problema central não é a existência de oposição radical, mas o esvaziamento do centro político que historicamente sustentou a estabilidade europeia.
Essa condição não surge do nada. Ela é resultado de um acúmulo de choques que a Europa absorveu ao longo das últimas duas décadas — da crise financeira à crise do euro, da migração em massa à pandemia, da guerra na Ucrânia à crise energética. Cada episódio foi tratado como exceção administrável. Em 2026, o que se torna evidente é que essas exceções se tornaram estrutura. Governos continuam funcionando, eleições continuam ocorrendo, mas a margem de manobra política se estreita a cada novo ciclo.
O relatório da Eurasia destaca que França, Alemanha e Reino Unido compartilham um traço comum: executivos politicamente fracos, pressionados por eleitorados fragmentados e incapazes de articular consensos duradouros. Isso não significa ingovernabilidade imediata, mas algo talvez mais limitante — governos que governam reagindo, não liderando. Reformas estruturais são adiadas, decisões estratégicas são diluídas e políticas públicas passam a ser desenhadas com horizonte cada vez mais curto.
Essa paralisia interna tem implicações externas profundas. Durante o pós-Guerra Fria, a Europa funcionou como pilar normativo do sistema internacional: promotora de regras, acordos e mecanismos de cooperação. Mesmo sem poder militar equivalente ao americano, oferecia estabilidade institucional e previsibilidade. Em 2026, essa função se enfraquece. Uma Europa politicamente dividida e cautelosa perde capacidade de agir como ator estratégico autônomo e passa a operar de forma defensiva, mais preocupada em administrar tensões internas do que em moldar o ambiente externo.
O cerco político europeu se fecha em múltiplas direções. Internamente, partidos populistas exploram o desgaste do custo de vida, a percepção de perda de controle migratório e a sensação de distanciamento entre elites e sociedade. Externamente, a Europa sofre pressão simultânea de aliados e adversários. A Rússia explora suas fissuras por meio de estratégias híbridas; os Estados Unidos, cada vez mais orientados por interesses domésticos, tratam o continente menos como parceiro estratégico e mais como variável circunstancial. Num mundo cada vez mais dividido, ninguém assume a tarefa de sustentar a coesão europeia — e ninguém espera que a própria Europa consiga fazê-lo sozinha.
O ponto mais sensível desse risco não é o avanço isolado de forças extremas, mas a normalização da impotência política. Quando governos eleitos passam longos períodos incapazes de entregar resultados concretos, a confiança institucional se deteriora mesmo sem ruptura formal. A democracia continua existindo, mas perde densidade. Esse esvaziamento cria um ciclo difícil de romper: a falta de resultados alimenta radicalização; a radicalização torna governos ainda mais cautelosos; a cautela reforça a percepção de irrelevância.
A fragilidade europeia amplia o espaço de manobra da Rússia, dificulta respostas coordenadas à fragmentação comercial e reduz a capacidade de governança coletiva em áreas como tecnologia, energia e segurança. Num sistema internacional já marcado pela ausência de liderança clara, a paralisia europeia remove um dos poucos polos que ainda ofereciam alguma previsibilidade normativa.
O risco europeu em 2026, portanto, não é espetacular. Não há tanques nas ruas nem suspensão aberta de direitos. O perigo está na erosão lenta da capacidade de decidir, de agir e de sustentar compromissos de longo prazo. Em um mundo cada vez mais competitivo e menos cooperativo, essa erosão tem efeitos desproporcionais. A Europa pode continuar estável no curto prazo, mas sua dificuldade crescente de transformar estabilidade em influência estratégica a torna vulnerável — não, a um inimigo específico, mas a um sistema internacional que penaliza quem hesita por tempo demais.
Estar cercado politicamente não significa estar à beira do colapso. Significa algo talvez mais preocupante: estar presente, mas cada vez menos relevante.
3. A América Latina de volta ao tabuleiro geopolítico
A América Latina reaparece em 2026 não como protagonista de um projeto próprio, mas como espaço de disputa em um sistema internacional cada vez mais transacional. O relatório da Eurasia identifica esse retorno não como novidade histórica, mas como reativação de um padrão recorrente: em momentos de fragmentação global e ausência de coordenação, regiões institucionalmente frágeis tornam-se variáveis de ajuste das grandes potências. O risco não está na centralidade latino-americana, mas na forma como ela é novamente instrumentalizada.
O caso da Venezuela sintetiza essa dinâmica. A remoção de um regime autoritário, quando ocorre, tende a produzir manchetes e dividendos políticos imediatos — especialmente para atores externos. O problema real começa depois. Transições políticas exigem tempo, recursos e capacidade institucional, três elementos escassos em um mundo de G-Zero. Derrubar um governo é politicamente visível; construir estabilidade é politicamente custoso. Em 2026, o risco não é a mudança em si, mas o vazio que se abre no pós-crise.
Esse padrão não se limita à Venezuela. Ele reflete uma condição estrutural da região: Estados com capacidade administrativa limitada, economias dependentes de ciclos externos e sociedades profundamente polarizadas. Em contextos assim, qualquer choque político tende a gerar efeitos desproporcionais. O relatório destaca que, sem coordenação internacional sustentada, transições se tornam processos improvisados, vulneráveis a disputas internas, interferências externas e frustrações sociais rápidas.
A leitura de poder é clara. Para os Estados Unidos, a América Latina volta a ser tratada prioritariamente como esfera de influência, mas agora sob uma lógica mais direta e menos institucionalizada. O discurso de promoção democrática convive com ações pragmáticas de curto prazo, orientadas por ganhos políticos imediatos. Com o ambiente doméstico americano polarizado, políticas para a região tornam-se extensões da disputa interna, não projetos estratégicos de longo prazo.
Esse movimento ocorre em um contexto internacional em que outros atores observam, calculam e se posicionam. A região não se torna palco de uma nova Guerra Fria clássica, mas entra em um jogo de pressões cruzadas, no qual investimentos, apoio político e acordos econômicos são utilizados de forma seletiva. Países latino-americanos, por sua vez, operam com margem de manobra reduzida, tentando extrair benefícios pontuais sem capacidade real de ditar termos.
O risco se agrava pela ausência de mecanismos regionais eficazes. Diferentemente de momentos anteriores, a América Latina entra em 2026 sem instituições regionais robustas capazes de coordenar respostas coletivas ou sustentar transições complexas e o resultado é um ambiente em que cada país enfrenta crises de forma isolada, aumentando a volatilidade política e econômica.
Há também um componente social que reforça essa vulnerabilidade. Crises políticas costumam produzir expectativas rápidas de melhora material. Quando essas expectativas não se concretizam — o que é comum em contextos de transição — o descontentamento se transforma em frustração, protestos e descrédito institucional. Esse ciclo alimenta narrativas antiestablishment e abre espaço para soluções autoritárias ou populistas, perpetuando a instabilidade que se pretendia resolver.
O retorno da América Latina ao tabuleiro geopolítico, portanto, não representa empoderamento regional. Representa exposição. Em um sistema internacional fragmentado, regiões com baixa capacidade institucional tornam-se terrenos de teste para estratégias externas e ajustes políticos rápidos. O risco não é uma intervenção aberta ou uma ruptura espetacular, mas a normalização de processos incompletos, nos quais a política muda mais rápido do que as instituições conseguem acompanhar.
Em 2026, a América Latina não enfrenta um destino trágico inevitável, mas opera em um ambiente estruturalmente desfavorável. Sem coordenação global, sem liderança regional sólida e sob pressão de atores externos cada vez mais pragmáticos, a região volta ao tabuleiro — não como jogador pleno, mas como peça em um jogo definido em outras mesas.
2. Quem controla os elétrons controla o futuro
A disputa central do século XXI não gira mais em torno de quem controla territórios ou rotas marítimas, mas de quem controla a energia, a infraestrutura elétrica e as cadeias industriais que a transformam em poder. Em 2026, o relatório da Eurasia Group deixa claro que tecnologias definidoras da época — veículos elétricos, baterias, inteligência artificial, robótica, drones e sistemas de defesa avançados — compartilham uma dependência comum: elétrons confiáveis, baratos e politicamente seguros. O risco não está na escassez imediata de energia, mas na politização crescente de sua produção, distribuição e uso estratégico.
Durante grande parte do pós-Guerra Fria, a energia foi tratada como problema econômico e ambiental, não como eixo central de poder sistêmico. A globalização permitia que cadeias de suprimento se organizassem segundo critérios de eficiência, enquanto a segurança energética era administrada por mercados relativamente integrados. Em 2026, essa lógica se esgota. A transição energética, longe de ser um processo tecnocrático, transforma-se em campo de competição geopolítica direta, no qual autonomia, resiliência e controle passam a valer mais do que eficiência pura.
O relatório destaca que a nova infraestrutura do poder não se limita à geração de energia, mas inclui mineração de minerais críticos, capacidade industrial de refino, domínio tecnológico e controle de padrões técnicos. Países que concentram esses elos acumulam vantagens duradouras. Aqueles que dependem de fornecedores externos tornam-se vulneráveis a choques políticos, restrições comerciais e pressões estratégicas. Em um mundo onde a coordenação internacional é frágil, essas vulnerabilidades não são compensadas por acordos multilaterais robustos.
A leitura de poder aqui é direta. Estados capazes de integrar energia, indústria e tecnologia criam zonas de autonomia estratégica. Eles conseguem proteger setores-chave, sustentar capacidades militares avançadas e influenciar regras globais. Já Estados que entram tardiamente ou de forma fragmentada na transição energética enfrentam um dilema: aceitar dependência estrutural ou investir pesadamente em cadeias próprias, com custos econômicos e políticos elevados. Em ambos os casos, o espaço de manobra diminui.
Isso reforça o capitalismo de Estado, na medida em que governos passam a intervir diretamente para proteger setores energéticos e tecnológicos. Alimenta a fragmentação comercial, à medida que cadeias globais são redesenhadas por critérios de segurança. E amplia a competição tecnológica, pois padrões elétricos, digitais e industriais tornam-se instrumentos de influência geopolítica. A energia deixa de ser pano de fundo e passa a ser estrutura central da rivalidade entre potências.
Há também um efeito distributivo que tende a ser subestimado. A transição energética exige investimentos maciços e decisões políticas difíceis, com impactos diretos sobre preços, empregos e padrões de consumo. Em sociedades já pressionadas pelo custo de vida e pela desigualdade, essas decisões se tornam politicamente explosivas. O resultado é um ambiente em que políticas energéticas são constantemente tensionadas por ciclos eleitorais curtos, dificultando estratégias de longo prazo.
O risco não é que a transição energética fracasse, mas que ela ocorra de forma assimétrica e conflitiva. Países avançam em velocidades diferentes, constroem barreiras para proteger seus setores e utilizam energia e tecnologia como instrumentos de barganha. Em vez de reduzir tensões globais, a transição passa a reorganizá-las. O controle dos elétrons substitui o controle do petróleo como eixo do poder, mas herda — e em alguns casos intensifica — suas lógicas de competição.
Em 2026, quem controla os elétrons, não controla apenas a matriz energética, mas o ritmo da inovação, a capacidade industrial e a autonomia estratégica. Em um sistema internacional fragmentado, essa concentração de poder torna-se fonte permanente de instabilidade. Não porque a energia falte, mas porque ela passa a ser tratada como ativo estratégico em um mundo incapaz de produzir regras compartilhadas para administrá-la coletivamente. Em um ambiente hostil e menos cooperativo, isso é suficiente para transformar a infraestrutura elétrica no coração silencioso do risco global.
1. A revolução política nos Estados Unidos
O maior risco global de 2026 não emerge de uma guerra em curso, de uma crise econômica clássica ou de um choque tecnológico inesperado. Ele nasce no interior da principal potência do sistema internacional. A revolução política em curso nos Estados Unidos não é um evento episódico, nem uma anomalia eleitoral. Trata-se de uma transformação estrutural na forma como o poder é exercido, legitimado e contestado — com consequências que extrapolam, em muito, as fronteiras americanas.
Durante grande parte do pós-Guerra Fria, os Estados Unidos funcionaram como algo mais do que uma superpotência militar e econômica. Atuaram como âncora institucional de um sistema internacional baseado em regras, previsibilidade e expectativas relativamente estáveis. Mesmo quando erravam — e erraram com frequência — havia a suposição de que freios institucionais, alternância de poder e respeito a normas básicas limitariam desvios extremos. Em 2026, essa suposição deixa de ser segura.
O relatório da Eurasia Group é explícito ao tratar o momento atual como uma ruptura, não como continuidade turbulenta. A polarização política americana ultrapassa o desacordo programático e se converte em conflito existencial. Instituições deixam de ser vistas como árbitros legítimos e passam a ser tratadas como instrumentos a serem conquistados, neutralizados ou reconfigurados. O Estado, nesse contexto, torna-se arma política — não apenas meio de governança.
O aspecto mais perturbador desse processo não é a vitória de um campo político específico, mas a normalização da excepcionalidade. Medidas que antes seriam tratadas como desvios graves passam a ser justificadas como respostas necessárias a uma ameaça maior. A legalidade cede espaço à lealdade; a institucionalidade, à eficácia política imediata. Em um sistema construído sobre a premissa de limites, a erosão desses limites produz efeitos cumulativos difíceis de reverter.
Essa revolução interna se conecta diretamente ao conceito de G-Zero. Um mundo sem liderança clara torna-se ainda mais instável quando o ator central do sistema perde previsibilidade doméstica. Aliados passam a hesitar, não por discordarem de políticas específicas, mas por não saberem qual versão dos Estados Unidos estará no comando amanhã. Adversários, por sua vez, testam limites, exploram ambiguidades e apostam na fragmentação da resposta americana. A política interna deixa de ser assunto doméstico e se converte em variável central do risco global.
O impacto se estende à economia, à segurança e à governança internacional. A politização das instituições afeta decisões regulatórias, comerciais e estratégicas. A confiança na neutralidade do sistema jurídico e administrativo — um dos pilares do poder americano — se desgasta. Investimentos passam a incorporar risco político interno; alianças tornam-se mais transacionais; compromissos internacionais perdem durabilidade. Não há ruptura formal da ordem, mas há desalinhamento progressivo entre poder e legitimidade.
O que torna esse risco singular é o fato de ele reorganizar todos os demais. A fragmentação comercial, o avanço do capitalismo de Estado, a paralisia europeia, a assertividade russa, a disputa energética e tecnológica — todos esses processos se intensificam quando o centro do sistema opera sem consenso interno mínimo. Em um mundo já fragmentado, a instabilidade americana não cria o caos, mas remove os últimos amortecedores capazes de contê-lo.
O relatório insiste em um ponto crucial: independentemente do desfecho imediato dessa revolução política, não há retorno ao status quo anterior. Mesmo que a institucionalidade formal sobreviva, ela emerge transformada, mais frágil e mais contestada. A confiança, uma vez corroída, não se recompõe rapidamente. E, em política internacional, confiança é tão relevante quanto capacidade material.
Em 2026, os Estados Unidos continuam sendo a maior potência do mundo. O risco não está em sua queda abrupta, mas em sua metamorfose interna. Um país poderoso, porém imprevisível; central, porém polarizado; capaz, porém institucionalmente tensionado. Em um sistema internacional que já opera sem coordenação efetiva, essa combinação é particularmente instável.
O maior risco global, portanto, não é a ascensão de um novo Hegemon nem o colapso da ordem existente. É algo mais sutil e mais difícil de administrar: um mundo em que o principal organizador do sistema deixa de acreditar plenamente nas regras que ajudou a criar — e passa a tratá-las como instrumentos contingentes de uma disputa política sem fim à vista.
Conclusão – Um mundo funcional, porém instável
Os riscos globais de 2026 não apontam para um colapso iminente da ordem internacional, nem para a substituição clara de uma hegemonia por outra. O que emerge do conjunto é algo mais difícil de administrar: um sistema que continua operando, mas perdeu a capacidade de se coordenar de forma consciente, previsível e duradoura.
A fragmentação descrita ao longo deste relatório não é apenas geopolítica; é institucional, econômica e cognitiva. Estados continuam existindo, mercados continuam funcionando, tecnologias continuam avançando. O que se enfraquece é o elo que conectava esses elementos a projetos coletivos minimamente estáveis. Regras permanecem em vigor, mas já não organizam expectativas. Instituições sobrevivem, mas governam cada vez menos. O poder não desaparece — ele se dispersa, se politiza e se torna mais transacional.
O conceito de G-Zero, longe de ser apenas uma descrição do vácuo de liderança global, revela sua dimensão mais profunda em 2026: a incapacidade estrutural de produzir coordenação mesmo quando os riscos são amplamente conhecidos. A água torna-se arma não por escassez absoluta, mas por ausência de governança. A energia vira eixo de poder não por falta de oferta, mas por fragmentação estratégica. A inteligência artificial corrói capacidades humanas não por intenção deliberada, mas por operar em instituições frágeis e sistemas de incentivos distorcidos.
Nesse ambiente, o maior fator de instabilidade não é a ascensão de um novo rival sistêmico, mas a transformação interna dos atores centrais. A China aceita custos econômicos em nome de controle político. A Europa preserva suas instituições, mas perde capacidade decisória. A Rússia explora o desgaste prolongado como estratégia. E os Estados Unidos, pilar histórico da ordem baseada em regras, entram em um processo de revolução política que redefine sua relação com o próprio Estado e com o sistema que ajudaram a construir.
O mundo de 2026, portanto, não é caótico no sentido clássico. Ele é funcionalmente instável. Capaz de seguir em frente, mas cada vez menos apto a corrigir seus próprios desequilíbrios. Em um sistema assim, os riscos não se acumulam apenas — eles interagem, amplificam-se e se retroalimentam.
Entender esse momento histórico exige abandonar a busca por eventos decisivos e aceitar uma realidade mais desconfortável: a instabilidade não vem de rupturas espetaculares, mas da normalização de um mundo que perdeu seus amortecedores institucionais. O desafio de 2026 não é evitar o colapso imediato da ordem internacional, mas reconhecer que ela já opera em um estado permanente de tensão — e que, sem coordenação efetiva, esse estado tende a se tornar o novo normal.