O Brasil possui uma das maiores riquezas estratégicas do século XXI enterrada sob seu território — e boa parte da população sequer sabe disso.
As chamadas terras raras estão presentes em praticamente tudo o que define o mundo moderno: carros elétricos, inteligência artificial, smartphones, turbinas eólicas, equipamentos médicos e sistemas militares avançados. São minerais que a economia tecnológica global não consegue dispensar — e cuja escassez seria capaz de paralisar setores inteiros da indústria contemporânea.
E agora as maiores potências do planeta estão em uma corrida silenciosa para garantir acesso a eles.
Estados Unidos, China e Europa disputam influência, investimentos e acordos envolvendo reservas minerais brasileiras. O motivo é direto: quem controlar esses recursos terá vantagem econômica, industrial e militar nas próximas décadas.
Em março de 2026, o presidente Lula resumiu essa tensão em uma frase incomum no vocabulário presidencial brasileiro: “Estão querendo nos colonizar outra vez.” A declaração fazia referência ao crescente interesse estrangeiro nas riquezas minerais do país — especialmente nas terras raras — em meio à tentativa ocidental de reduzir a dependência da China. Pode ser lida como retórica política. Pode também ser lida como diagnóstico preciso.
O nome enganoso
Apesar do nome, terras raras não são exatamente raras.
O termo se refere a um grupo de 17 elementos químicos da tabela periódica — os 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Muitos deles existem em concentrações razoáveis em várias regiões do planeta. O verdadeiro desafio está em encontrar depósitos economicamente viáveis e, principalmente, dominar o processo de separação e refino — etapas que transformam minério bruto em material de alta performance pronto para uso industrial.
É justamente aí que começa a disputa global. E é justamente aí que o Brasil ainda não chegou.
Os minerais que movem o século XXI
O neodímio e o disprósio são essenciais para a produção de ímãs permanentes de alta potência usados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas e servidores de data centers. Sem eles, a transição energética global — a substituição dos combustíveis fósseis por energia renovável — para literalmente.
O európio e o térbio aparecem em telas LED e OLED. O gadolínio é utilizado em equipamentos de ressonância magnética. O lantânio está nas baterias de veículos híbridos e nos catalisadores de refinarias de petróleo.
Até a indústria militar depende fortemente desses elementos. Um único caça F-35 americano utiliza cerca de 417 quilos de terras raras em seus sistemas eletrônicos e magnéticos. Radares, mísseis de precisão, drones, comunicações criptografadas — tudo passa por esses minerais.
Sem eles, não há transição energética, não há inteligência artificial em escala e não há defesa nacional moderna. São o petróleo do século XXI — só que ainda mais estratégicos, porque não existem substitutos à altura.
O tamanho da riqueza brasileira
O Brasil possui aproximadamente 21 milhões de toneladas de terras raras — a segunda maior reserva conhecida do planeta, representando entre 15% e 23% do total global. As principais jazidas estão localizadas em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe.
Mas o potencial brasileiro vai muito além das terras raras. O país também concentra 94% das reservas globais de nióbio, grandes reservas de grafita, a terceira maior reserva mundial de níquel, além de lítio, cobre e cobalto em volumes estratégicos. Poucos países no mundo reúnem tantos minerais considerados críticos para a nova economia global. Talvez nenhum os reúna com essa densidade.
A vantagem chinesa — e o que ela revela
A China possui cerca de 49% das reservas mundiais conhecidas de terras raras. Mas o verdadeiro poder de Pequim nesse mercado não está no subsolo — está na indústria.
Ao longo de décadas de investimento deliberado, a China construiu uma gigantesca capacidade de processamento e refino. Hoje, praticamente toda a cadeia global de terras raras — da extração bruta ao material refinado pronto para uso industrial — passa pelo território chinês. Países como Austrália e Estados Unidos têm depósitos relevantes, mas enviam o minério bruto para ser processado na China. É uma dependência que se construiu lentamente, quase sem que o Ocidente percebesse.
Em 2025, o governo chinês ampliou restrições à exportação de terras raras processadas, aumentando o temor de que esses minerais fossem usados como instrumento de pressão em disputas comerciais e tecnológicas. Em março de 2026, autoridades chinesas anunciaram a descoberta de uma nova reserva gigantesca de terras raras leves, estimada em 9,7 milhões de toneladas. O recado geopolítico foi tão alto quanto o dado geológico.
A ofensiva americana — e o dilema brasileiro
Os Estados Unidos perceberam a dependência tarde demais — mas estão se movendo com urgência.
O Brasil entrou diretamente no radar de Washington. A mineradora Serra Verde, em Goiás, opera atualmente uma das poucas plantas comerciais de separação de terras raras fora da Ásia. Em 2025, a agência americana DFC concedeu um empréstimo de 565 milhões de dólares à empresa — com uma cláusula de prioridade no fornecimento futuro da produção para os americanos.
Em 2026, o governo americano foi mais longe: tentou avançar com acordos diretos com governadores de estados brasileiros, contornando o governo federal — uma jogada que Brasília repudiou publicamente, mas que revelou a intensidade da pressão americana com uma clareza desconcertante. Para Washington, trata-se de segurança econômica e militar. Para o Brasil, o dilema histórico se apresenta mais uma vez: continuar como exportador de matéria-prima barata ou finalmente construir uma cadeia industrial própria?
O paradoxo que o Brasil conhece bem
Apesar de possuir a segunda maior reserva do mundo, o Brasil responde hoje por apenas 0,1% da produção global de terras raras. O padrão é familiar até o ponto de ser doloroso: o país exporta recursos brutos e importa produtos industrializados com alto valor agregado.
Em 2025, o Brasil importou cerca de 10 milhões de dólares em terras raras processadas e exportou apenas 3,6 milhões. Tem o recurso. Não tem a tecnologia para transformá-lo. E paga a diferença.
A conta do que está sendo deixado na mesa é enorme. Estudos indicam que um modelo nacional verticalizado — envolvendo mineração, refino, industrialização e desenvolvimento tecnológico — poderia gerar até 119 bilhões de reais em 40 anos. No modelo baseado apenas na exportação de minério bruto, o retorno estimado seria de 4,4 bilhões. A diferença é de 27 vezes. Vinte e sete.
O que o Brasil precisa decidir
A questão das terras raras não é uma questão mineral. É uma questão de projeto de país.
O Brasil pode escolher ser o fornecedor de matéria-prima que alimenta a indústria de outros países — como fez durante séculos com café, borracha, minério de ferro e petróleo. É um caminho que gera receita de curto prazo, mas que perpetua a dependência estrutural e entrega a outros o maior pedaço do valor criado.
Ou pode escolher construir uma cadeia verticalizada — com extração, beneficiamento, refino e, eventualmente, fabricação de componentes de alta tecnologia dentro do território nacional. É um caminho mais longo, mais difícil, que exige política industrial consistente e capacidade de resistir à pressão de quem prefere o Brasil no papel de fornecedor. Mas é o único que transforma riqueza em soberania.
O Congresso brasileiro não está parado: projetos de lei criando uma Política Nacional de Minerais Críticos, propondo reservas estratégicas e sugerindo moratórias temporárias já tramitam. Uma Frente Parlamentar em Defesa das Terras Raras foi criada. O tema migrou do técnico para o político.
Mas enquanto o Brasil debate, o mundo não espera.
Conclusão
As terras raras são o espelho mais nítido de um dilema que o Brasil carrega há séculos: como transformar riqueza natural em soberania, em tecnologia, em bem-estar duradouro para sua população.
A frase de Lula — “Estão querendo nos colonizar outra vez” — pode ser lida como retórica. Mas também como o reconhecimento tardio de que algo muito valioso está sendo disputado, e que o Brasil ainda não decidiu o que vai fazer com ele.
O mineral está no solo. A reserva existe. O potencial é real.
O que ainda falta é decidir — com clareza e com urgência — para quem esse ouro invisível vai trabalhar
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